O Vale dos Mil Rostos
Um mapa de pirata e um vale escondido

O capitão Tortuga partiu rumo à Ilha do Coco, a 532 quilômetros da costa da Costa Rica. Sonhava em descobrir o maior tesouro já escondido no Pacífico, o famoso Tesoro de las Palmas.
Quando chegaram, desembarcaram na praia Bosque de Palmas. Havia areias brancas e águas turquesas. O capitão Tortuga e seus homens sentiram que tinham chegado ao paraíso. Os cocos eram cheios, recheados de água de coco doce.
Depois de vários dias descansando e brincando ali, após a longa viagem pelo mar, os piratas adentraram a floresta densa até o Templo dos Piratas Mortos. Era um lugar cheio de perigos a cada passo — alçapões, cobras venenosas e escorpiões, calhas secretas que levavam a masmorras.
Nenhum dos homens do capitão Tortuga queria entrar, mas o mapa do tesouro estava escondido lá embaixo.
Quando os piratas entraram, um enorme muro de pedras caiu sobre eles, atingindo dois deles na cabeça. Outro foi atacado num corredor escuro e úmido por uma centena de escorpiões. Dele só restaram ossos.
Agora eram sete.
Por sorte, encontraram o mapa do tesouro sobre um altar elevado, com as palavras: “Cuidado, portador.”
Depois do Templo dos Piratas Mortos, o grupo seguiu até o Porto das Âncoras Enferrujadas, um cemitério de navios piratas. As chaves do baú do tesouro deveriam estar no navio do capitão Flamingo, o caolho.
O capitão Flamingo havia navegado os sete mares cem anos antes. Seu barco se desfazia nas costuras. Sua âncora tinha ficado vermelho vivo de ferrugem.
O segundo imediato do capitão Tortuga, Francisco Álvarez, era um nadador muito forte, o mais forte da tripulação. Lutou contra ondas de três metros e escalou rochas pontiagudas, com pontas afiadas como lanças.
Por fim, Francisco subiu a bordo e encontrou as chaves escondidas, nada menos que no armário da cozinha.
Com as chaves em mãos, os piratas puderam então entrar no Vale dos Mil Rostos. Era um lugar estranho. Para onde quer que olhassem — uma árvore, um penhasco, um arbusto, as pedras do chão — parecia que um rosto olhava de volta. Um vale de mil rostos.
Alguns rostos eram severos, outros sorriam, alguns riam.
O Vale dos Mil Rostos era exuberante, repleto de abacates e cocos. Cachoeiras brotavam em abundância dos penhascos altos, oferecendo toda a água doce gelada que os piratas pudessem beber.
Perto da cachoeira mais alta, a Cachoeira do Homem do Pescoço Comprido, havia um cavalo gigante formado de pedra. Sua cauda apontava como um dedo para o chão, como a dizer: aqui está, é isto que vocês procuram.
O lugar coincidia com o X do mapa do tesouro.
O capitão Tortuga e seus homens tiraram as pás. Cavaram e cavaram e cavaram, dez metros terra adentro, e acharam uma caverna de ar fresco, com estalagmites pontiagudas e estalactites imensas de todas as cores — as cores do arco-íris.
E lá estava, sob o arco do arco-íris, um baú quase do tamanho do navio do capitão Tortuga.
Os painéis e rebites eram de ouro puro. Esmeraldas, safiras e todo tipo de joia adornavam a tampa enorme. As chaves do navio do capitão Flamingo serviram.
Era tanta riqueza e o baú era tão pesado que os homens só puderam levar uma pequena parte, enfiando-a em sacos.
Dentro do baú havia tesouros inimagináveis: colares de pérolas raras, cálices de ouro, espelhos de esmeralda, anéis, medalhões, coroas de ouro puro.
Francisco achou um anel de ouro com um golfinho gravado que lhe coube perfeitamente.
Ao subirem à superfície, foram recebidos por um sol radiante. As cachoeiras cintilavam; os arco-íris formavam uma fileira de arcos ao longo do vale.
Os homens arrancaram abacates das árvores e os devoraram de fome. Era o lugar mais belo que já tinham visto, um paraíso.
Tudo o que queriam estava ao alcance das mãos: peixe no mar, fruta na árvore, água doce.
O capitão Tortuga olhou para os homens e se refletiu num poço de água cristalina. Ele também sorriu; as pedras dentro do poço tomaram a forma de seu rosto.
“Eu não vou embora daqui”, sussurrou.
“Isto é o paraíso”, gritaram os homens.
E assim devolveram o tesouro para mantê-lo a salvo e cobriram o buraco. Armaram acampamento no vale e ali viveram uma vida inteira.
Quando chegou a hora, cada homem morreu com um sorriso no rosto. As árvores, as rochas e os arbustos tomaram a forma de seus rostos sorridentes.
O vale já não se chama Vale dos Mil Rostos. Agora chama-se Vale dos Mil e Sete Rostos.
O capitão Tortuga encontrou um lugar bem ao lado da cauda do cavalo para velar pelo tesouro e pelo vale para sempre.
Uma história de Pemba Umoja