Peixe-Trombeta
Um Pescador, uma Turista e a Questão de Quem Realmente é Capturado
Rocky vivia perto da aldeia de Chembe, no Lago Malawi.
Toda manhã, ele acordava às 4 da manhã e viajava de barco na escuridão da noite para o lado distante da Ilha Mumbo para armar suas redes. Lançava garrafas plásticas para suspender as redes e estendê-las pelo lago.
Na China, seu peixe-trombeta renderia centenas de dólares, mas Rocky ganhava apenas 50 centavos por peixe dos comerciantes da aldeia — aqueles que contrabandeavam os peixes em compartimentos ocultos de caminhões cheios de bananas.
Metade dos peixes morria antes mesmo de chegar a Lilongwe.
Os comerciantes subornavam os funcionários no aeroporto, enquanto rotulavam os peixes falsamente. Eles aplicavam uma tintura nos peixes para tornar sua pele temporariamente preta e evitar a detecção.
Rocky estava constantemente se esquivando do Departamento de Parques Nacionais e Vida Selvagem, onde seu tio e seu primo trabalhavam. Ele também levava para casa champa e kampango. Seus irmãos e irmãs não sabiam de seu negócio paralelo de capturar peixes em perigo de extinção de um parque nacional.
Todos pensavam que Rocky era apenas um homem trabalhador.
Um dia, uma turista chamada Julia, de um lugar chamado New Jersey, veio a Cape Maclear, para o Thumbi Lodge. Ela alugou um barco para visitar as ilhas e observar as águias se alimentando de peixes.
Ao contornarem o lado distante da ilha, Julia avistou um pequeno barco perto de uma enseada. — O que aquele homem está fazendo? — perguntou ela ao capitão, com atenção.
— Está pescando ilegalmente — respondeu o capitão. — Ele está a menos de 100 metros da margem.
Julia começou a gravar seu vídeo. — Vá na direção dele — exigiu Julia. O capitão manobrou o barco de mogno azul cada vez mais perto de Rocky.
Foi só quando quase passaram por cima das redes de Rocky que ele notou o celular de Julia. A câmera capturando cada um de seus movimentos. As redes estavam em sua mão. Os peixes-trombeta se contorciam dentro da malha. Enquanto ele os desembaraçava, os peixes caíam em uma cachoeira colorida dentro de baldes.
A multa pela pesca ilegal era severa e acompanhada de pena de prisão.
Rocky seria desonrado, banido de sua aldeia. O único lar que ele conhecera.
O pânico ricocheteou em sua mente. Enquanto os peixes-trombeta arquejavam por ar, Rocky se imaginou preso dentro de uma rede enorme.
Julia começou a gritar. — Pegamos você! Pegamos você! — Rocky estremeceu com suas encantarias estridentes.
Os pais de Rocky haviam morrido em um acidente. Um caminhão de bananas os atingiu na beira da estrada da aldeia ao desviar de um buraco. Sendo o mais velho, Rocky lutava para sustentar seus irmãos mais novos.
O capitão levou seu barco bem para o lado do de Rocky. Eles balançaram juntos, lado a lado, perto da enseada, ambos pairando sobre o recife frágil. Julia continuou a provocar Rocky. — Pegamos você. Pegamos você.
Rocky segurava uma faca de pesca na mão. Aquela que ele afiava todos os dias. Aquela que ele usava para filetar peixes para seus irmãos e irmãs.
Rocky pulou a bordo do barco de Julia. Assustada com o salto de seu corpo, ela deixou o celular cair no convés de mogno.
Rocky o agarrou e o atirou tão alto no ar que quase atingiu um hamerkop antes de cair no lago. As águias espreitavam dos penhascos rochosos lá no alto.
— Ei, você não pode fazer isso! — gritou Julia.
— Bem, você não pode simplesmente me filmar sem minha permissão — respondeu Rocky.
— Nzanga, nzanga, m’bale.
— Ndili nawe. Ndili nawe. Claro, nzanga, meu irmão — sussurrou o capitão para si mesmo.
Rocky virou as costas para Julia e acenou para o capitão enquanto voltava para seu esquife.
Julia afundou no convés de mogno molhado, afogando-se em lágrimas, engasgando por ar.
Peixes-trombeta lutavam por ar em suas redes.
Rocky estava tão livre quanto as águias que pairavam acima dele.
Rocky poderia alimentar sua família por mais um dia.
Julia voltou para a margem, decidida a contar a todos os seus amigos nas redes sociais sobre os horrores do dia.
A rede de privilégio a estrangulava como os peixes-trombeta que ainda se contorciam na rede de Rocky, aprisionando sua visão em suas fibras encharcadas.
A story by Pemba Umoja