O Homem de Cro-Magnon
Uma Parábola Moderna Sobre Preconceito
Penhascos de bochechas pendendo de falésias de maçãs do rosto, olhos tão penetrantes como os de um falcão—enterrados no abismo de órbitas bronzeadas.
Careca, com pele lisa como camurça.
Bíceps, tríceps, deltoides ondulando mesmo sob um suéter folgado de crochê.
Percorrendo os corredores, procura o seu lugar.
Os passageiros mexem-se nos seus assentos à sua passagem.
Um homem de cabelos brancos e pele pálida sussurra à esposa: "Acho que ele não é daqui."
Um profissional de meia-idade a caminho de uma conferência imobiliária toma nota e decide vigiar de perto este vizinho sentado diretamente à sua frente.
"Terá objetos cortantes? Não, não teria passado pela segurança," racionaliza. "Talvez use outra coisa—uma caneta. Talvez ataque os olhos. Talvez tenha treinado durante anos combate corpo a corpo."
O voo descola. O sinal de cinto ainda está aceso, mas o homem de Cro-Magnon levanta-se rapidamente.
O profissional imobiliário desaperta o cinto e retira-se para a casa de banho, observando o vizinho à distância.
O homem de Cro-Magnon abre o compartimento superior, vasculha a mala e tira um computador.
"Hmmm," sussurra o executivo imobiliário para si mesmo. "Já que estou aqui, posso usar a casa de banho." Olhando-se ao espelho, imagina-se espião. Puxa as calças e volta ao seu lugar.
O homem de Cro-Magnon está a iniciar sessão no computador. "Talvez o detone, use-o para interferir com os computadores do avião," delibera o homem dos imóveis.
Espreita de perto, tentando ver o ecrã.
O homem de Cro-Magnon está a conectar-se ao Wi-Fi. Depois coloca os óculos de leitura. Tira uns papéis.
"Será que vai usar aqueles papéis como arma?" reflete o profissional imobiliário.
O homem pálido de cabelos brancos e a sua esposa esticam o pescoço e também olham.
A story by Pemba Umoja